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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

"Idioma"

a língua minha é corpo puro:

braço longo que
alitera corpo magro que
obnubila buraco no peito que
grita face forte que
reitera

...e a lingua tua é pura transcendência.

...e a alegra meu anticorpo
frente ao desmanche seu
que me despe e me emudece
e reduz meu verbo a anti-corpo
e meu corpo a sub-corpo:
sub-corpo do teu corpo.

(nossa semântica é de fins e inícios
mas não existe como tal
pois não finda e não se inicia
no comprimento da minha raíz mais íntima
nem na duração da morte pública mais minha)

minha origem
está num espelho
primordial
cada vez mais escondido
e recôndito.

...a chave de meu corpo lá se encontra,
encerrando consigo mesma,
o conceito de meu idioma mais particular.

sábado, 20 de setembro de 2008

"Espelho por detrás"

aqui discuto o espelho por detrás.

... pois é justamente o momento
de discutir a trivialidade
como resposta maior
à aflição:

por trás do espelho,
faz-se o nada,
nunca o dobro.

faz-se a parede,
não o reflexo.

faz-se o limite,
o limbo, o sem-Deus.

... e a duplicação e inversão da coisa é,
por via de regra,
demoníaca:

eu em dobro.
tu em dobro.
ele em dobro.

e(a extensão da coisa se dá
involuntariosamente)à parte
de mim,
de ti,
dele.

... mas a reflexão
é terra de ninguém,
somente daquele o qual
imensamente tentamos ser
sem chance dele sermos.

... neste sistema parcialmente isolado,
o angélico está na moldura,
e portanto, no signo
da reflexão.

...a qualidade de espelho é,
sempre será,
satânica.

...neste aspecto,
o espectro de minha poesia,
são diferentes tonalidades
de satanismo
e
de santidade.

esta encontra-se atrás do espelho,
pois é lá onde me situo:

me encontro atrás do espelho.

... e considerações exteriores sobre a vida por detrás do espelho,
olhar o que mais já foi escrito por mim aqui.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

"A escolha de si mesmo"

a mãe estirada debaixo da árvore
os toma pra si.

sobre a terra rachada,
toca seus seios, a inveja.

limpa,
o filho a examina,
condescendentemente.

atrás do espelho,
tornou-se sua mãe.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

"Catatonia do poeta"

... por ora,
o poeta está só de si mesmo,
pois sua língua,
e seu objeto,
naquilo que nunca houvera sido,
evanesceram, padeceram
em lágrimas expectantes.

... no momento,
tudo o que o poeta deseja
é, adversamente,
não desejar:
no seu desejo ao contrário,
encontrou a paz finamente bem quista.

estando só em si mesmo,
pôde conhecer parcela sua,
primordial e pulsátil,
a confundi-lo, torturá-lo,
com aquilo jamais feito
e jamais satisfeito.

a parcela-outra,
manifestando-se tesa,
tratou de mostrar-se
corporalidade relutante,
imersa e imensa,
a esconder-se incompleta.

... indiferenciado,
passivo de si mesmo,
seu próprio existir
regressou ao fino estado de ser.

o poeta se fechou para si mesmo,
dentro do espelho.

post scriptum

... e entretanto,
foi naquilo nunca sido
que o poeta encontrou,
por fim, seu estandarte.

post post scriptum

este escrito também poderia se chamar Ecolalia ao inverso ou ainda Ecopraxia de mim mesmo.

ambos me expressam.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

"Soror de minha alma"

I - morte


teu corpo a mim
fechado em dor,
me fez acordar
e ver a luz
brilhante
como mais
um artifício,
teu a me apear.

(rútila luz,
parte de ti
em direção a mim
-
a luz do céu;
cujos pesados raios
caem sobre mim)

... meu mundo, minha vida
fecham-se para mim
e não sou
mais...

(...eles abrem
sobre ti
e me abro
a seus desejos
como um campo de flores
- prelúdio nosso)

... e eu,
contando sóis
marcando cicatrizes
em meu rosto,
fecho meus olhos.

... tu fechas os olhos e eu morro.

(luminescência a trazer consciência)


II - reflexão acerca de ti


"tu foste algo de anjo,
algo de diabo,
a me irmanar,
com asas híbridas de humano.

e das flores do campo que és tu,
colhi as mais simples.

também benzi o bálsamo de tua pele,
e o espalhei sobre meu ventre:
vi teu resto a refletir
uma lua turva de perdas irreais e vazias

(lençol sem sangue, puro
- prova de intocável amanhecer -
exposto à luz do sol)

da tua lua,
descendeu a neve, demorada, a cair,
e soterrar meu amor entre pedras de gelo.

teus olhos negros foram eclipses
a me esconder de ti mesmo
na tua própria penumbra.

... houve teu sorriso,
desconexo no vazio que restou:
forma pálida de gozo.

mas sem ti não há amanhecer,
nem ascenção, nem flores.

... e para além do céu de seus olhos
escondem-se lá alguns lírios,
como mares evanescentes de neve:
águas-vivas cristais a esfuziar na luz pequena do dia.

teu mar provou-se um rio,
e nada mais.

... enquanto isso,
nuvens cruzam o meu céu,
enquanto flores morrem."


III - (re)nascimento


através de ruas altas,
banhadas pelo sol,
encontro-me caído e cambaleante.

banhado por neve a derreter,
sonho com um interminável prelúdio -
o outono.

quando me ergo e me lembro dos teus olhos,
de abissalidade negra,
de riquezas demais,
sinto-me anterior
ao nascimento:

ao te rever
meu coração é
nada mais
que uma borboleta estática.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

"O êxtase de Santa Teresa (ou Síndrome de Stendhal)"

longe da lânguida lâmina do dia,
faz-me só orgasmos, perdido amor,
estar frente a arte de Sua face.

...em prol de Sua admiração,
me cego, me revolto e me agracio,
escorraçado, invertido e tardio,
à Sua reticente expressão.

longe da lânguida lâmina do dia,
penso em Sua face como a de um homem,
e me apego à Sua beleza de homem
de sangue e penumbra vazia:

a
bombear pelo meu corpo de forma violenta,
preenchendo lacunas outrora permanentes.

a
tontear a insana compreensão
da minha realidade, tal qual como a recrio de ti.

a
confundir o resquício, restolho,
de mim em mim mesmo, após o corte da lânguida lâmina do dia.

... de faca fina e de pronto,
sou um tesouro recôndito,
incrustado na realidade em si própria,
permeado pela beleza de sentir,
adversamente, a alucinação
do prazer mais primordial.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

"Exploração por detrás do espelho"

olhando ao meu inverso,
e ao teu também,
só fiz ver divisão

entre o que é primórdio
e
entre o que é artifício.

... e passaste a ser
nada, nada mais,
que uma dinâmica
demoníaca

entre o que é superfície
e
entre o que é imanência.

penetrando na tua parte civilizada,
me cortando na lâmina de tudo,
entendi a divisão

entre aquilo que és
e
entre aquilo que tu mostras a mim.

fugindo do fenômeno de ti,
penetrei a fundo naquilo que és,
me enojei contigo
... e te vomitei,
e também em todos os teus símbolos
de superficialidade.

... olhando ao inverso de tudo,
pude sentir a inefável sensação,
de conhecer a coisa desvinculada,
desligada da semântica do desejo,
da vicissitude do sentido.

te conheci, finalmente, em/a ti próprio.

com o punho nu,
estourei o espelho,
meu sangue tingiu teus olhos,
mas não pude me esconder de ti.

o fantasma de ti em ti mesmo me sugou.

e doeu.

o eu de mim, portanto, passou somente a viver na palavra,
como todos assim sempre houveram.

... o que reclamo da amálgama,
a mágoa, a agonia,
do eu de ti ser
como nunca houvesse sido.

este texto é também um avião fugitivo,
clandestino.

... um avião para fora do reino no qual me prendi.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

"Exploração"

te exploro por completo,
por dentro
e
por fora.

enquanto por dentro,
investigo a familiaridade,
a veracidade da verdade,
no ensaio da nossas estórias.

em convite à identificação com estas estórias,
me livro de mim mesmo ao investigar a familiaridade,
a veracidade da verdade,
no ensaio das mesmas estórias...

... e penetro fundo em ti.

colho os nutrientes de mim mesmo,
no ensaio de cada estória,
que é também o teu reverso
pois tu és meu reverso.

e para mim mesmo,
me permito à fluidez de ti

ao fazer estória,
ao fazer identidade,
ao fazer regra,

e um grande terreno...

enquanto por fora,
noto o fenômeno de cada estória,
o que em cada sentido aparece
em cada terreno...

... e penso somente naquilo que penso.

vejo
atentamente
que tudo é aquilo que brinca de ser...

e noto um vazio temporário aparecer como forma,
substancial e real não reconhecidamente...
atento.